Aluno problema: um desafio que vale a pena

A dificuldade de aprendizagem de alguns alunos e o sentimento de impotência dos professores para lidar com essa situação forma um círculo vicioso. Um círculo que se expressa na queixa do professor, que se sente deprimido e decepcionado. Isso mostra que as dificuldades dos alunos problema são similares às do professor, pois eles também sentem-se impotentes para aprender. “São coisas simbiotizadas e dialéticas. Ou seja, quanto mais o professor acredita na incapacidade do aluno mais ele acredita na sua incapacidade de ensinar”, disse a psicopedagoga Maria Cristina Mantovanini. Ela participou do V Congresso e Feira de Educação Saber 2001, entre os dias 13 e 15 de setembro, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, com a palestra “Professores e alunos problema: um círculo vicioso”. O assunto foi tratado na pesquisa de doutorado realizada por Mantovanini, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Na palestra, Mantovanini descreveu vários aspectos de seu trabalho na USP, inclusive sobre a pesquisa teórica e de campo realizadas para investigar o tema. Em resumo, ela verificou como a escola vem tratando a questão do fracasso escolar ao longo da história e, depois, como os professores entendem o problema. Uma entrevista com alunos avaliados em dois grupos, como bons e maus alunos, também fez parte do estudo.

Um dos pontos ressaltados pela psicopedagoga é que a primeira reação dos professores com relação aos alunos problema é se vitimar e colocar para fora dos muros da escola a possibilidade de intervenção. Para ela, a queixa ocorre por idealizar uma situação de ensino na qual ele não tem poder para mudar. “O professor só transforma a realidade se puder conhecê-la e encarar os fatos. Transformar a queixa em problema é o primeiro passo”, orientou.

Uma questão importante, por exemplo, é quando o professor acha que o aluno tem uma postura inadequada porque ele pertence a uma família desestruturada. “Ora, isso é possível, mas quanto mais o professor idealiza o aluno ideal, a família ideal, as condições ideais de ensino, mais ele se deprime com a realidade que encontra em sala de aula”, explicou Mantovanini. Essa idealização não é possível, segundo a psicopedagoga, por muitas razões. Uma delas é porque a escola congrega inúmeros humanos e “os humanos são complicados”. Além disso, as famílias não são mais iguais às de 40 anos atrás. “Hoje os acertos são outros: há separações, opções sexuais diversas… e certamente o professor se vê diante de turbulências emocionais. Agora, se o professor esperar a situação harmônica, fecham-se as escolas porque isso não existe mais”, concluiu.

De acordo com Mantovanini, toda essa situação é expressa em forma de queixa e isso é uma forma de não encarar a realidade. “A idealização é importante porque o professor precisa acreditar no poder que a educação tem de ajudar a promover o desenvolvimento do ser humano. Por outro lado, essa idealização traz problemas porque ele idealiza uma situação que não existe”. Diante disso, a psicopedagoga acha que a grande tarefa é ajudar o professor a transformar a queixa em problema. Esse problema pode até não ter solução, mas “transformar em problema é uma forma de refletir sobre a realidade”. O professor, segundo ela, precisa acreditar em seu papel fundamental na sociedade, colocando o aluno problema como desafio. “O professor não percebeu a importância que ele tem principalmente para esses alunos que não aprendem. Muitas vezes, o aluno tem um pai tão adolescente e irresponsável quanto ele e o professor vai ser o único adulto para ensinar as regras básicas da convivência, do respeito ao próximo”, ressaltou. Além disso, o aluno problema acredita que ser reconhecido pelo professor é, por exemplo, ser chamado na lousa. “Muitas dessas crianças sabiam que não eram bons alunos porque nunca foram chamados na lousa e, para eles, a aprovação do professor é fundamental”.

O estudo de Mantovanini também pôde detectar soluções diante da própria queixa dos professores. “Quando o professor percebe que o aluno problema não é um caso perdido, retoma a potência de ensinar e começa a pensar do ponto de vista pedagógico para ajudar o aluno”, salientou a psicopedagoga, enfatizando também a necessidade de projetos que ajudem o professor a acreditar em seu papel social.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
SANTOS, Thais Helena dos. Aluno problema: um desafio que vale a pena. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/aluno-problema-um-desafio-que-vale-a-pena/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

Ou

Aluno problema: um desafio que vale a pena, por Thais Helena dos Santos, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/aluno-problema-um-desafio-que-vale-a-pena/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

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