Educação e jornalismo: função comercial ou política?

Para o jornalista Eugênio Bucci, professor de Ética Jornalística da Faculdade “Cásper Líbero”, a escola perdeu seu lugar para a mídia. “Sua função de hierarquizar valores, de estabelecer as significações sociais, de dar sentido, além das significações, aos discursos foi no princípio corroída e depois encampada pela mídia”, explicou, concordando com a idéia de que a escola virou uma instituição de adestramento para o capital. Essas colocações foram feitas no Seminário Educação e Comunicação: um debate contemporâneo, promovido pela FEUSP (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo) e pelo mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi, realizado entre os dias 6 e 8 de novembro, nos campi das duas instituições. Junto com Bucci, compondo a mesa-redonda “Educação na comunicação: uma questão de ética”, participaram Flávia Schilling e José Sérgio Fonseca de Carvalho, ambos da FEUSP, e Annie Dyetman, das Faculdades Belas Artes de São Paulo.

Com o título “Ética e mídia”, a palestra de Bucci iniciou com alguns questionamentos sobre o sentido da educação. “O que é a educação afinal senão o campo que, para além do alcance das garras imediatistas do mercado, e para além da lógica fria das chamadas razões do Estado, estabelece os sentidos sociais, hierarquiza os valores humanistas, cultiva enfim um campo crítico a partir do qual tudo que seja anti-humanista possa ser questionado, repensado e depois modificado? O que é formar cidadãos senão formar sujeitos autônomos e, portanto, não heterônomos como quer o Estado e o capital? O que é a educação senão a estrada para a emancipação da pessoa e das pessoas?”

Depois, reconhecendo não ser autorizado a dar respostas por não ser educador, frisou que faria uma reflexão a partir do que aconteceu no campo da comunicação, ressaltando “quatro aspectos da cristalização para um novo e enorme complexo do capitalismo contemporâneo” e que foi capaz de englobar e anular a ação emancipadora da educação. São eles: 1) mercantilização da massa; 2) embaralhamento do relato jornalístico em relação aos conteúdos e às formas da ficção; 3) todas as produções do sentido convergem para os parâmetros postos por essa indústria; e 4) o surgimento de um novo tipo de capitalismo para o qual a própria educação passa a ser um filão de mercado, passa a ser um prolongamento da lógica do espetáculo.

Bucci entende que houve uma mudança de natureza do público com o advento dos meios de comunicação no século XX. Antes, tínhamos uma reunião de cidadãos, dentro dos ideais democráticos. Agora, essa reunião transformou-se num “amalgama gigantesco formado pelos sujeitos enquanto consumidores”. Referindo-se ao século das luzes, Bucci lembrou que, com o fim da monarquia, o poder deixou de vir do alto, de Deus, para ser posto pelo povo. Para que isso se concretize o povo deve ter “acesso à informação e ao conhecimento para então delegar poder para os seus mandatários”. Daí a educação ser necessária como “força de emancipação”. E o jornalismo, nesse sentido, é ou deveria ser uma “função social e política”, suprindo o público das informações que lhe pertencem por direito antes de ser uma “função comercial”.

Quando a imprensa e a comunicação social se convertem em função meramente comercial, os próprios direitos se mercantilizam, segundo Eugênio Bucci. “À medida que esse mesmo público se revela passível de ser vendido ao anunciante, o que é decisivo na transformação do jornalismo em indústria, os meios de comunicação se dedicam mais a ampliar seu público, não mais como cidadãos reunidos, mas como consumidores, anônimos, dispersos de si, e compactados enquanto massa, alienados por definição”, explicou.

O negócio dos meios de comunicação, segundo Bucci, é o extrativismo natural do olhar social para vender aos anunciantes. Fez um cálculo para comprovar a sua tese. Disse que 30 segundos dos intervalos comerciais do Jornal Nacional, da Globo, custam R$ 159.520,00 e a audiência é de 25.919.461 pessoas, quase 26 milhões de telespectadores. Se dividirmos o custo pela quantidade de pessoas, teremos o valor de R$ 0,06 por pessoa para cada 30 segundos. Em 8 horas, teremos o preço de R$ 5,90 pelo aluguel de um par de olhos. Comparando com o salário-mínimo, Bucci chegou ao valor de R$ 6,00 por 8 horas de trabalho. “O trabalho socialmente necessário para um par de olhos é o mesmo para o corpo de um trabalhador”, salientou, esclarecendo que esse olhar extraído a partir de um programa como o No limite é vendido no comércio, estabelecendo um novo patamar da mais-valia no campo do espetáculo.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. Educação e jornalismo: função comercial ou política?. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/educacao-e-jornalismo-funcao-comercial-ou-politica/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

Ou

Educação e jornalismo: função comercial ou política?, por Ebenezer Takuno de Menezes, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/educacao-e-jornalismo-funcao-comercial-ou-politica/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

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