Ensino de filosofia: por uma mediação pedagógica

O projeto de lei que coloca a filosofia e a sociologia no ensino médio como disciplinas obrigatórias foi aprovado no Senado Federal. Enquanto aguardamos a sanção ou veto do presidente Fernando Henrique Cardoso, conversamos com o professor Celso Favaretto, da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), para saber a sua opinião.

Autor do livro A Invenção de Hélio Oiticica, pela Edusp, e Tropicália: Alegoria alegria, pela Ateliê Editorial, Favaretto ministra as disciplinas Metodologia do Ensino de Filosofia, no curso de licenciatura, e Modernidade no Brasil, na pós-graduação. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, também é professor e orientador na pós-graduação em filosofia, na área de Estética. Nesta entrevista, conheça as dificuldades dos professores de filosofia no ensino médio, os equívocos praticados na sala de aula e a importância da disciplina para a formação.

Tem alguma crítica sobre o projeto de lei, já aprovado no Senado Federal, para colocar a filosofia como disciplina obrigatória no ensino médio?
Celso Favaretto — Eu concordo. Deve ser disciplina obrigatória. Ela é essencial para a formação dos estudantes no ensino médio. A filosofia tem uma contribuição básica com referenciais teóricos, desenvolvimento de práticas reflexivas e instrumentos para a reflexão sobre a vida contemporânea.

Os alunos reclamam da existência de muitas disciplinas como a biologia, geografia, história etc. Nesse contexto, há espaço para a filosofia?
Celso Favaretto — Ela é uma disciplina como qualquer outra. Poderia perguntar então por que geografia e não filosofia? Por que educação física e não filosofia? O problema de espaço é de grade curricular. Tradicionalmente, o ensino médio sempre teve muitas disciplinas. A questão não é do número de disciplinas, mas de que o ensino brasileiro foi encolhendo o tempo de trabalho com os alunos. Este é o problema. É um problema de estrutura do ensino e não de acúmulo de disciplinas.

Uma professora de filosofia disse que é muito difícil conseguir dar uma aula ou executar um programa com um tempo tão curto, cerca de duas horas por semana?
Celso Favaretto — É verdade. É muito pequeno mesmo, mas isso não justifica que a disciplina não deva comparecer. O problema não é de ter esta ou aquela disciplina. O problema maior é da estrutura do ensino que limita demais as atividades escolares.

Do ponto de vista das demandas da escola, a filosofia tem algo a oferecer para a capacitação do aluno, para o mercado ou para o futuro profissional? Qual a característica da filosofia que a escola poderia estar se apropriando e utilizando na grade curricular?
Celso Favaretto — Não tem a ver com o mercado de trabalho. Tem a ver com a formação. A filosofia é essencial para a formação do homem pensador, de um jovem que discute, que se apropria da cultura de seu tempo. Portanto, ela não é imediatamente aplicável em termos de mercado. A filosofia tem o seu valor consubstanciado como disciplina formadora.

Nesse sentido, a obrigatoriedade dessa disciplina…
Celso Favaretto — Acaba sendo uma responsabilidade para com a educação.

Qual a principal dificuldade de professores em formação para o ensino de filosofia?
Celso Favaretto — A principal dificuldade é como transformar a filosofia, que é aprendida na universidade, em conteúdos, estratégias e táticas de pensamento apropriados para o jovem nesta idade de alunos no ensino médio. Não é possível transferir simplesmente a filosofia aprendida para os jovens. É preciso estabelecer mediações entre os conhecimentos e, principalmente, os procedimentos reflexivos da filosofia para os alunos, utilizando-se das referências culturais.

Atualmente, a filosofia tem alguma metodologia difundida ou está em formação?
Celso Favaretto — Não. Só há experiências. E é bom que tenhamos muitas experiências. O amadurecimento vem aos poucos. E nem é para ter uma metodologia específica. Acho que há muitas maneiras de se trabalhar com a filosofia no ensino médio. A única coisa que não se pode é dispensar, de um modo ou de outro, a referência à própria filosofia, a seus temas, a seus problemas, à sua maneira de problematizar, à sua maneira de argumentar e, principalmente, à grande importância que se deve dar à construção de conceitos. Isso é uma coisa essencial que pode ser feita diretamente com os textos filosóficos ou mais indiretamente. Mas nunca se deve eliminar a leitura filosófica e uma certa freqüência a textos que sejam fragmentos. O simples contato com essa linguagem mais resistente em relação à linguagem comum pode ser formativo e isso é a dificuldade dos professores: como trabalhar com uma linguagem tão resistente como a da filosofia com alunos que, de certa forma, demandam uma linguagem mais comum, do dia-a-dia.

Teria um caso ilustrativo que pudesse mostrar os equívocos praticados pelos professores de filosofia e que devem ser evitados?
Celso Favaretto — Eu não posso dizer que deve ser evitado, mas posso colocar dois tipos de dificuldades como exemplo. Uma dificuldade é transpor diretamente a história da filosofia para os alunos, seja narrativamente, seja através dos textos, como se faz na universidade: vamos aos textos, vamos às obras fundadoras da filosofia e vamos fazer o curso do ensino médio baseado nessas obras. Não que se deva evitar o trabalho com os textos, mas é preciso de uma mediação pedagógica para se chegar aos textos.

O segundo equívoco é ignorar totalmente a história da filosofia, os textos, os temas, os problemas e procedimentos dela e tomá-la apenas como um modo muito vago de pensar, que pode ser aplicada em qualquer problema. São dois exemplos extremos e ambos trazem dificuldades imensas. O primeiro traz uma dificuldade quanto a entrar na própria filosofia, que talvez não seja adequado para esses alunos. E o segundo exemplo porque nega, porque não se faz filosofia, se faz qualquer outra coisa.

Os alunos costumam perguntar: para que serve a filosofia? Que orientação daria aos professores que estão diante do aluno com essa questão?
Celso Favaretto — O professor tem que fazer um trabalho muito difícil. Primeiro: ele não pode dar uma resposta imediata para que serve. Ele deve desenvolver um trabalho que, aos poucos, vai fazendo o aluno perceber onde é que está o valor. E o valor está exatamente dele se apropriar de uma linguagem, cuja consistência lhe permite aplicá-la a outros espaços da vida que não apenas o escolar, que lhe permite lançar mão de referências teóricas, de conceitos, de modos argumentativos com os quais ele pode criticar a política, pode fazer julgamentos morais, pode se posicionar frente à problemática existencial dele e se colocar criticamente na cultura. Isso é uma conquista. Não adianta mostrar para o aluno que a filosofia é importante e nem adianta dizer que ela é inútil para aplicação imediata.

É preciso insistir num trabalho que, aos poucos, vai construindo a importância da disciplina para o aluno. É muito difícil e essa é uma das razão pela quais o ensino de filosofia, de modo geral, não é bom. Os professores precisam estar muito conscientes dessa atitude. Não basta saber minimamente filosofia. Tem que exercitar o modo de como ela pode ser valorizada e fundada como disciplina relevante, porque ela não é uma disciplina relevante no currículo. Ela não é, até hoje, legitimada.

Uma professora disse que é muito difícil concorrer com a televisão porque ela pede um imediatismo, uma utilidade das coisas… Em função disso, para que serviria a filosofia?
Celso Favaretto — Mas não dá para entrar nessa de comparação com televisão, ou comparação com a ciência, ou com a matemática. Trata-se de fazer a tentativa de legitimar a filosofia enquanto disciplina naquilo que ela tem de específico, naquilo que ela tem de formativo, de formação do pensamento. Sei que é uma coisa difícil e não adianta dizer que vai concorrer com isso ou aquilo. Não vai concorrer com nada. Ela é, em princípio, alguma coisa rejeitada. Porque ela faz uma demanda aos alunos de tratar alguma coisa que não é útil imediatamente e que é muito exigente em termos de pensamento.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. Ensino de filosofia: por uma mediação pedagógica. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/ensino-de-filosofia-por-uma-mediacao-pedagogica/>. Acesso em: 22 de jan. 2019.

Ou

Ensino de filosofia: por uma mediação pedagógica, por Ebenezer Takuno de Menezes, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/ensino-de-filosofia-por-uma-mediacao-pedagogica/>. Acesso em: 22 de jan. 2019.

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