Mídia, educação e cidadania

“Se há um processo de exclusão, a exclusão da escola, dos bens de consumo, dos teatros, a maior exclusão possível que alguém pode cometer é considerar que pessoas pouco dotadas financeiramente e socialmente não têm prazer com um produto de boa qualidade”. A declaração é da professora Maria Thereza Fraga Rocco, titular da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), referindo-se aos argumentos que justificam a péssima programação pelo público de poder socioeconômico baixo.

Fraga Rocco fez doutorado em Linguagem e Educação e livre-docência sobre televisão. Este último estudo deu origem ao livro Linguagem autoritária: televisão e persuasão, que a Brasiliense está relançando. Com o artigo “Televisão e educação: um canal aberto”, colaborou para a edição do livro Mídia & educação, lançado pela Gryphus.

Nesta entrevista exclusiva, a professora expõe seu pensamento sobre TV, educação e cidadania. Faz críticas e elogios a determinados programas de televisão, mostra como o educador pode formar um espírito crítico e sugere algumas posturas para pais e escolas na educação das crianças.

EducaBrasil – Como a televisão está sendo abordada no meio acadêmico?
Maria Thereza Fraga Rocco – Houve um tempo em que a TV era ignorada no meio acadêmico, mas isso já passou. Hoje a televisão é uma realidade inegável no meio acadêmico. Quem ignora a televisão está fora do tempo, desconhece a própria atualidade dos meios de educação e formação. Temos, por exemplo, na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP) departamentos que estudam a televisão em si e nos seus vários segmentos. Eles estudam a TV não como objeto, mas como um meio, assim como se estuda o livro e o jornal. E há outros setores que não são especializados que se utilizam da televisão como recurso.

EducaBrasil – E na Faculdade de Educação especificamente?
Rocco – Há disciplinas como a minha. Eu estudo especificamente a televisão e sua linguagem, como um veículo da mídia, como meio. O que é a televisão? E ao mesmo tempo procuro analisar como é que esse meio, às vezes, se presta à educação. Normalmente se estabelece uma comparação de igualdade: televisão tem que ser educativa. Isso é uma falácia. De que educação estamos falando? Aliás, trato isso no capítulo do livro da Gryphus (Mídia & educação). Uma coisa é esse objeto que eu compro, no qual vejo os programas. Outra coisa é, na televisão, assistir ao Telecurso 2000 ou Salto para o Futuro, numa perspectiva especificamente didática. Quando vejo uma novela ou documentários, pela TV aberta ou por assinatura, posso ter aspectos educativos lato sensu. A Muralha, da Globo, pode educar num sentido amplo muitas pessoas. Mesmo sendo romanceada pode contar a história do País.

EducaBrasil – Nesse sentido, a TV é educativa?
Rocco – Ela é e pode ser muito mais.

EducaBrasil – A partir de quando a TV ganha importância no meio acadêmico na área de educação?
Rocco – A TV não tinha importância em lugar nenhum. Na educação, há uns 30 anos vem ganhando importância.

EducaBrasil – E por que começou a ganhar importância?
Rocco – Há 30 anos não se sabia bem até como mexer com o veículo. A televisão tem 50 anos. Ela é jovem. Há 30 anos existiam coisas muito misturadas. Por exemplo, a TV Cultura, quando começou as primeiras aulas, era cansativa. As pessoas não agüentavam assistir. Por quê? Porque ela procurava repetir o esquema da escola. A televisão começou a surgir como um potencial educativo lato sensu quando não quis repetir a escola.

EducaBrasil – Ela quis inovar na sua linguagem?
Rocco – Não. Enquanto ela repetia o que a escola fazia, não era atrativa. Não conseguia educar porque não tinha encontrado a sua linguagem. Por exemplo, se a gente pensar em grandes consertos e operas pela televisão, será que eles são atrativos ou podem levar o telespectador a dormir? Sem dúvida, levam ao sono, porque a TV não é o veículo para esse tipo de manifestação artística. Ir a um concerto é diferente de assistir pela televisão. Então, digo a partir de 30 anos porque quando a TV apareceu no Brasil, havia espetáculos que se tentava passar pela televisão, não só no Brasil, mas no mundo todo; o que acontecia com o teatro ou com a sala de aula e não dava certo. Não era essa a linguagem do veículo. Então, através de uma série de observações, tentativas e estudos, percebeu-se que, para ter uma televisão que possa informar, distrair e educar, ela precisa encontrar uma linguagem. O Brasil Legal, da Regina Casé, ao meu ver, era um programa altamente educativo e extremamente charmoso. Cada episódio era feito numa cidade do Brasil. Eu estive em Natal e fui ver o tal do cajueiro de não sei quantos metros. Por que fiquei alerta para isso? Porque eu vi o menino do cajueiro. Então, a televisão desperta na população uma série de coisas que são da cultura popular, da cultura real do povo. Isso falando de educação lato sensu.

EducaBrasil – Nesse sentido, falando de suas aulas, o que se poderia falar para o educador preocupado com a mídia? Quais seriam as questões?
Rocco – No meu livro Linguagem autoritária: televisão e persuasão faço uma análise do programa Silvio Santos e de comerciais de TV.

EducaBrasil – Antes, por que escolheu esses dois temas?
Rocco – É muito boa a sua pergunta. É raro a pessoa que percebe isso. Sempre achei, antes de estudar a televisão, que ela era oral. Depois, percebi que não. A televisão é basicamente escrita. Então, procurei um programa de auditório, que era mais informal, que não tinha um roteiro escrito etc. Na época, tinha o Chacrinha e o Fávio Cavalcante. Entrevistei 750 pessoas, entre crianças, adolescentes e pré-adolescentes, para saber qual dos três programas eles gostavam mais; e qual assistiam mais em casa. O programa Silvio Santos ganhou.

Em contrapartida, comecei a estudar o que eu chamo a gramática dos comerciais. É um segmento que perpassa toda a televisão, o tempo inteiro, em qualquer emissora. O que varia é o tipo de comercial, horário, a quem ele é destinado. E ele é escrito com muito cuidado. Tem que pôr em 30 segundos — antes era mais em um minuto, depois em 15 segundos — uma história com começo, meio e fim. Tem que dar um recado.

Então, estudei o que era expontâneo, desses animadores, que era muito mais oral; e o que era muito mais escrito, no caso os comerciais de TV, como são também as novelas. Elas são profundamente escritas, são roteiros decorados pelos atores… São roteiros com um pouco mais de flexibilidade. Os jornais noticiosos são cuidadosamente escritos para parecerem orais. Analisando isso, cheguei a muitas conclusões. Inclusive, um dos elementos que você pode usar nas aulas é o comercial.

Pensando numa abordagem multidisciplinar, como a educação é pensada hoje, o professor de português junto com o de ciências pode analisar um comercial e ver se aquilo que se diz do produto é verdadeiro. Se o Danone tem as propriedades que eles dizem que tem. Do ponto de vista de línguas, pode-se analisar o tipo de gramática. Não a normativa, mas as regras que sustentam todos os comerciais. Eles não têm quase orações subordinadas. Há muitas orações independentes, com alta taxa de adjetivos. O grau superlativo está sempre presente. Quando o comercial é dirigido para crianças, tem a linguagem afetiva, com muitos diminutivos, rimas etc. Os comerciais são peças esteticamente muito bem feitas que subjaz também uma ordem, que nem sempre é explícita. Não é um imperativo: vá, faça, pegue. É: não deixe de fazer; você é o único que ainda não foi; só falta você; só você ainda não comprou.

EducaBrasil – A senhora falou de uma estética muito bem feita, muito bem elaborada. Com relação ao receptor, que não recebe da mesma forma, como seria possível uma interferência no processo pedagógico considerando esta estética e diferentes receptores. Como pode ser o papel do educador?
Rocco – Além de trabalhar com disciplinas específicas, como língua portuguesa, química, ciência, pode-se começar a despertar nos telespectadores a análise crítica do que eles estão vendo.

EducaBrasil – E o que seria essa análise crítica?
Rocco – É exatamente verificar se aquele produto que está sendo oferecido é verdadeiro. Verificar, no comercial, até que ponto está impondo consumo que a gente não precisa ter. Eu analisaria como o comercial é feito especificamente para atingir a criança, de manhã, ou a dona de casa, logo depois do almoço, ou o jovem casal, na hora do jantar ou do Jornal Nacional, ou o pessoal da terceira idade, o dia inteiro.

Tem que se mostrar o que é bonito, porque é bem feito mesmo. Se for ensinar uma narrativa, ou seja, quem, o que, como, porque, onde, tem-se no comercial todos esses elementos. Mas tem que se mostrar o outro lado também. Eles querem que você vá ao supermercado, que atormente sua mãe e compre tal biscoito, porque agora é a moda.

EducaBrasil – Isso seria uma forma de alfabetizar o cidadão?
Rocco – Eu não diria alfabetizar, mas seria mesmo de criar e ampliar a capacidade de julgar. Como na TV é tudo muito rápido, nem sempre a pessoa pode parar e julgar: devo comprar, não devo… E a gente vê que tem muita mãe, muito pai que, para ficar livre da criança que chora, puxa, berra, no supermercado, compra. Eu tinha uma empregada que gastou um salário do mês para comprar uma boneca Xuxa para a filha. Mas a filha não queria muito, era mais ela quem queria. Então acho que existe todo um aspecto de fetiche, de satisfação do imaginário.

EducaBrasil – O que uma mãe, que tem um papel na educação além da escola, pode fazer diante de uma criança que quer um determinado produto?
Rocco – Primeiro, o que foi combinado na família? A criança vai ganhar presente no aniversário, no Natal e no Dia da Criança, que já está de bom tamanho. O que pode comprar fora disso? Pode comprar sorvete, em determinadas situações, pode ir ao MacDonalds… Não pode fechar a criança. Se a mãe vai ao supermercado, combina antes: “Olha, eu não vou comprar hoje nada disso…Você pode compara um Todinho, uma bala e uma fruta. Fora isso, não vai comprar mais nada”. E não comprar mesmo. Porque se comprar, a relação mãe/filho vira uma baderna. Tenho um neto e já fiz compras com ele. Disse que só tinha dinheiro para comprar duas coisas e ele pôs um monte de coisas no carrinho. Aí eu disse que só tinha dinheiro para comprar duas coisas. Ele falou: “Então vamos começar a tirar”. E ele foi tirando por escolha o que ele menos queria. Ficou com duas coisas meio caras, mas ficou com duas. Ou então dizer que só tem cinco reais ou não tem nada para comprar.

EducaBrasil – O que a senhora propõe é colocar regras?
Rocco – Sim. Sem regras não existe educação. Acho que tem que ser regras não impostas, mas conversadas, dialogadas. E há algumas que tem que impor. Também não adianta dizer que não tem dinheiro e a criança vê que tem para outras coisas.

EducaBrasil – A escola está preparada para enfrentar essas questões, da mídia, essa imposição da propaganda?
Rocco – Na verdade, não acho que exista uma imposição da propaganda. Acho que a propaganda vem porque nós vivemos numa sociedade de consumo. Quem não quer ser bem sucedido, ser o mais bonito? O Audi não virou carro de status do povo porque apareceu na TV. É o contrário. Ele vira o carro de status da sociedade e aparece na casa chique da novela das oito. Então, o que existe com relação à mídia, que a escola não percebeu e a família também não, é que o movimento é contrário do que se pensa. Não é a televisão que inventa, joga e a gente vira consumidor. Nós somos consumidores em potencial e a televisão sabe disso, o pessoal de marketing sabe, é função deles. Aí eles devolvem aquilo que o receptor quer. Talvez tinja, ponha contornos mais fortes, mais nítidos. Mas eles não mandam nada do que não seja conhecido e querido.

EducaBrasil – Nesse sentido, a escola não está preparada?
Rocco – A escola não está preparada para trabalhar com a mídia e também está muito despreparada para trabalhar os conteúdos específicos da escola. Estamos no século XXI, podemos dizer, e a escola no XIX.

EducaBrasil – As escolas particulares estariam mais sintonizadas com essas questões do que a escola pública?
Rocco – Tenho um conhecimento bastante grande sobre isso. A particular e a pública não dividem a qualidade, elas dividem uma característica de escola paga e não paga e de determinado tipo de professor. Temos escolas públicas excelentes, escolas-exemplos. Falo em relação ao ensino, ao preparo, ao conhecimento, forma como o conteúdo é tratado. É uma escola atualizada com seu tempo. Tem aqueles professores que se matam e não ficam atrás da reclamação de salário o dia inteiro. Eu sei que o salário do professor é péssimo. Sou professora. Mas se agente ficar atrás disso o dia inteiro, não faz mais nada. Tanto em escolas públicas quanto em particulares, há as ruins e as péssimas. Tanto na pública quanto da particular, há as boas e as que são ilhas de excelência.

EducaBrasil – E nessa questão de televisão, de mídia, teria uma opinião específica?
Rocco – Nessas escolas, de uma forma geral, a televisão é pouco usada, pouco conhecida, pouco trabalhada como recurso didático. Qualquer escola, pobre ou rica, pode pedir aos alunos que assistam 5 ou 15 minutos do Jornal Nacional. Depois, procurar num jornal escrito para saber se saiu no jornal escrito, para comparar. Pode pegar uma notícia de rádio. Sempre com o objetivo de comparar as linguagens, de comparar a forma da noticia e o enfoque dado, porque nada é neutro. Aí vão começar a aprender a ter espírito crítico. Eles vão comparar as informações. É assim que se forma um espírito crítico.

Aliás, você me fez uma pergunta que eu não respondi, com relação ao receptor que recebe de várias maneiras diferentes. Isso é fundamental. A TV não faz cabeça de ninguém. São órgãos informadores, esclarecedores, educadores, mas de formas diferentes e em cabeças diferentes. Numa mesma família, um mesmo programa provoca diferentes reações. A recepção não é homogênea, não é uniforme. Ela é uma relação viva e ativa. Por isso a gente é completamente contra esses preconceitos, conceitos construídos antes, de dizer que a televisão faz as pessoas ficarem passivas só porque ficam olhando e quietas. A TV passa por vários filtros até chegar até você, de características sociais, individuais, que permeiam o imaginário coletivo, pessoal, a fantasia, o medo, a ambição, o sonho, o desencanto etc. Tudo é filtrado pela sua própria fantasia.

EducaBrasil – A senhora elege os programas ruins. Por que são ruins se temos esses filtros?
Rocco – Somos seres humanos. É próprio do ser humano ter certa atração pelo grotesco, pelo brutal. E não é só na TV. O que acontece quando uma pessoa é atropelada na rua? Junta um monte de gente para olhar. Tem gente que adora contar fatos funestos. É uma paixão humana, no sentido do páthos, quase do desvio. Não sei se chega a ser um desvio porque é parte do ser humano. É parte porque tem a compaixão e a paixão. Então temos tanto uma audiência para programas de excelência quanto para programas que reputo de péssimo nível. Isso explica essa dualidade do ser humano de gostar do bonito, do estético, do ético e do grotesco. Ninguém quer que uma novela acabe mal, que o casal seja desfeito, porque você se identifica com aquilo. Mas há situações em que você não se identifica, mas tem compaixão, que é o caso do Ratinho, no SBT, do Ed Banana, que estreou na Record. São dois programas que apelam para o grotesco e para o populismo. O Ratinho tem mais populismo e o Ed Banana é mais grotesco.

EducaBrasil – Em que medida esses programas deseducam? Em que medida são prejudiciais para a formação de uma criança, de um adulto?
Rocco – Eles embrutecem a sensibilidade dos mais velhos e impedem o desenvolvimento do senso crítico nos menores. As “pegadinhas” do Faustão, agora, são mais lights, mas eram crianças se machucando, se expondo ao ridículo, em situações vexatórias. Acho que isso embrutece, deseduca e tira o senso crítico. Pegue os artigos 221, 222, 223, da Constituição. Temos claramente o que os veículos têm que fazer. Quem é dono da concessão é responsável também pela orientação intelectual dada a um programa.

EducaBrasil – E o argumento do Ibope?
Rocco – Acho isso um desrespeito à Constituição por um lado e por outro, uma flacidez governamental. Se temos uma Constituição que diz que a concessão pode ser cassada se houver qualquer coisa que não obedeça ao estatuto, não era para ter nada no ar, a rigor. Mas a gente vê a briga pela audiência. Em nome dela, se faz as coisas mais hediondas que se pode imaginar. E por outro lado, temos a flacidez dos órgãos responsáveis que tentam estabelecer uma conversa. O José Gregori deu uma entrevista em Paris dizendo que agora vai cobrar, vai impor multas pesadas. Mas eu conversei com ele há meses. Era para ser em setembro aquele código, entre emissoras, para ter um nível ético, e nada disso aconteceu. Então, luta-se pela audiência com programas de boa qualidade, que a Globo vem fazendo com as novelas. Não é à toa que Terra Nostra tem 45, 50 pontos. E quando chega a esse número são 40 milhões de pessoas assistindo. Isso por baixo. Por outro lado, na própria Globo tem o Linha Direta, que é medonho e tem audiência alta. Minha grande questão é: porque se a gente tem programas que pegam picos de audiência e são de boa qualidade, porque a gente luta por audiência com programas de baixíssimo nível.

EducaBrasil – A senhora tem uma hipótese para essa questão?
Rocco – A minha hipótese é que o grotesco é sempre mais barato. Aquele povo todo que vai no Ratinho não são atores. Vi no Ed Banana uma moça colocando a mão numas caixas com cobras, baratas… Não agüentei. Parei de assistir. Senti um asco. Isso não custa nada.

EducaBrasil – Acaba sendo uma questão econômica então?
Rocco – Sim. Mas eu acho um absurdo dizer que depois do Plano Real as pessoas de classe C, D e E, de nível socioeconômico baixo, tiveram mais acesso à TV, e que para esse povo tem que dar esse tipo de programa.

EducaBrasil – A senhora não concorda com isso?
Rocco – Não. Eu acho isso a maior falta de democracia que se possa ter. E se existe exclusão neste país, esse é um processo de exclusão mais violento, mais duro, fantasiado de doce. Quando uma novela tem 45, 50 pontos de audiência, um país inteiro está plugado nela, que é de classe A, B, C, D e E, qualquer classe. A pessoa por mais pobre que seja assiste à Terra Nostra. Não é gente pobre que quer ver baixo nível. É mentira. Isso é a coisa mais vergonhosa que está ocorrendo no Brasil. Se há um processo de exclusão, a exclusão da escola, dos bens de consumo, dos teatros, a maior exclusão possível que alguém pode cometer é considerar que pessoas pouco dotadas financeiramente e socialmente não têm prazer com um produto de boa qualidade.

EducaBrasil – A senhora acha que a programação ruim que a gente tem hoje na TV é um reflexo da elite que está dirigindo?
Rocco – Eu não sei se é um reflexo da elite. Acho que é reflexo de uma flacidez, de uma falta de regras e de uma anomia.

EducaBrasil – Entramos numa questão política?
Rocco – É política por um lado e econômica por outro. Já que do ponto de vista da lei, da Constituição, nos não precisamos cumprir porque não acontece nada mesmo, vamos fazer o que for mais barato e que agrade o povo. É lógico que fazer uma boa novela, um Castelo Rá-Tim-Bum agrada muito, mas tem um custo. Então, vamos fazer o mais rasteiro porque dá audiência. E tem a coisa de fazer participar, a história dos justiceiros…, do Ratinho, parece aquelas lutas livres, medieval. E isso atrai a todos. Não é só classe C, D e E. Quando um programa atinge entre 12 e 15 pontos, esta sendo visto por todas as classes. Um capítulo de uma novela simples custa R$ 40 mil. Um da Globo custa R$ 80 mil. Então, tem que ter retorno. Por que os órgãos públicos, sem pensar em censura, não fazem exercer o que está escrito na Constituição, onde está escrito que não deve ser renovado as concessões de quem feriu os princípios constitucionais. Nunca foram tão feridos como nos últimos 15 anos, e até mesmo agora neste último governo. Aquele dia em que o secretário José Gregori propôs não ter nada de violência na TV, um dia da paz, foi a coisa mais boba, infantil, que eu já vi, por parte dele. Se isso partisse da população, teria sentido. Se os órgãos atuam, a população tem que atuar também. Mas ela só pode atuar se for crítica, se souber que tem direitos, que a emissora não é do Sílvio Santos, do Roberto Marinho, do bispo Macedo. Ela é uma concessão. Então temos um ciclo vicioso e viciado porque um alimenta o outro.

EducaBrasil – Fica difícil a atuação do professor diante dessa mídia. Ele fica meio impotente. Mas diante dos alunos, o professor pode atuar? A senhora é otimista?
Rocco – Sou otimista. Acho que pode fazer muitas coisas com a televisão. Pode mostrar quanto é ruim aquele programa. Pode ver o programa ruim sim e mostrar o quanto é ruim. Pode mostrar o que é bom também e começar a ensinar para a criança, para jovens e adultos que aquilo é deles.

EducaBrasil – O curso de pedagogia hoje está preparado para essa questão?
Rocco – Na Faculdade de Educação, existe uma disciplina voltada para o ensino do trabalho com a mídia, com a TV, especialmente. Tem que formar professores para aprender a olhar a televisão, como usar a TV na sala de aula. Isso deveria ser desde pequeno até o aluno da universidade.

EducaBrasil – Existe um diálogo interdepartamental entre a ECA e a FEUSP (Faculdade de Educação da USP)?
Rocco – Tem muito trabalho, mas nada implantado como uma disciplina oficial. Mas o que acho interessante e está acontecendo são as propostas desses novos Parâmetros Curriculares do MEC, no ensino fundamental e médio, porque eles valorizam imensamente a mídia, e dentro da mídia a TV. Eles julgam imprescindível um trabalho com TV na escola. Tanto que a criação da TV Escola foi conseqüência disso. Eu malho o governo, mas enalteço o que acho interessante. A TV Escola veio para veicular vídeos de todas as disciplinas. As escolas recebem TV, parabólica, vídeo para gravar os programas. Mas isso não acontece. Isso teria que ser mais ampliado, mais divulgado. Isso não é uma critica, é uma dificuldade que poderia ser bom num país menor. Mas eu não quero um país menor. Acho que deveria ter um política de divulgação constante. Há escolas que nem abriram as caixas (dos Kits) e outras que atuam como catalisadoras na cidade, não só na escola.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. Mídia, educação e cidadania. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2000. Disponível em: <https://www.educabrasil.com.br/midia-educacao-e-cidadania/>. Acesso em: 26 de jun. 2019.

Ou

Mídia, educação e cidadania, por Ebenezer Takuno de Menezes, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2000. Disponível em: <https://www.educabrasil.com.br/midia-educacao-e-cidadania/>. Acesso em: 26 de jun. 2019.