Muito além da leitura de jornal

O jornal não deve ser entendido como uma “matéria” ou “disciplina” na escola, mas como uma fonte de informação para qualquer disciplina. A opinião é de Flávia Aidar, gerente de Projetos Educativos do Itaú Cultural, que desde 1982 utiliza o jornal como recurso pedagógico.

Bacharel em História pela USP (Universidade de São Paulo), Aidar foi responsável, em 1993, pela implantação e coordenação do Programa Folha Educação, do jornal Folha de S.Paulo. Atualmente, colabora na edição do Jornal Folha Educação com 4 edições anuais, que auxilia o professor a utilizar o jornal na sala de aula. Nesta entrevista, ela fala dos benefícios de se trabalhar com o jornal e fornece alguns exemplos aos educadores.

Como surgiu seu interesse pelo jornal como recurso pedagógico?
Flávia Aidar — Desde 1982, quando era professora de história da 8ª série do Ensino Fundamental na Escola Vera Cruz (SP), consideramos a possibilidade de trabalhar com jornal pedagogicamente. Conversamos então com um jornalista (Pacheco Jordão, pai de aluna da escola) e começamos a desenvolver uma metodologia própria de como trabalhar com jornal na sala de aula. Mais tarde, já em 1992, fui convidada pela Folha de S.Paulo a conceber um projeto de incentivo de leitura de jornal, que foi lançado em 1993 como o Programa Folha Educação, que implantei e coordenei até 1997.

Professores de qualquer disciplina podem utilizar o jornal? De que maneira?
Flávia Aidar — No meu entender, o jornal não deve ser entendido como uma atividade, “matéria” ou “disciplina” dentro da escola. Por ser uma fonte de informações sobre vários e diferentes assuntos, pode e deve ser trabalhado em qualquer disciplina e com qualquer faixa etária, ao lado de outras fontes de informação e leitura. Em língua portuguesa, por exemplo, trabalhar com as imagens (fotojornalismo) escondendo a legenda e solicitar que os alunos legendem a imagem ou dêem um título ao texto, ou ainda a partir de uma notícia, criar uma manchete, vai exigir do aluno um exercício de síntese na comunicação da idéia, bastante valioso pedagogicamente.

Após seus estudos e desenvolvimento de projetos com o uso de jornal, que descoberta poderia compartilhar com os professores sobre essa prática?
Flávia Aidar — Há inúmeros exemplos das vantagens do trabalho com jornal em sala de aula. Conhecemos, inclusive, algumas pesquisas que atestam como o repertório de informações dos estudantes pode aumentar de maneira significativa, num curto espaço de tempo. O raciocínio divergente também é bastante ativado por meio do trabalho com o jornal. Isto significa dizer que o fato do aluno trabalhar com matérias jornalísticas como fonte de informação, ele terá que ativar habilidades mentais que exigem múltiplas operações até chegar a uma resposta. Ao contrário, os antigos questionários que têm como referência um dado texto, só exige do aluno que ele localize no tal texto onde está a resposta esperada pelo professor.

Que orientação poderia dar aos professores interessados em utilizar o jornal na sala de aula? Quais são as abordagens possíveis de serem praticadas pelos professores?
Flávia Aidar — Antes de mais nada o professor deve ser um leitor de jornal. Isto não significa que ele tem que ler o jornal de “cabo a rabo” todos os dias. Mas que ele terá que estar familiarizado com este meio e proporcionar que seus alunos também se familiarizem com o jornal. Em seguida, ele deve saber como é que se estrutura a chamada “arquitetura informacional” do jornal, ou seja, ele deve dominar o que é a linguagem jornalística. Começar a explorar o jornal com seus diferentes tipos de texto já é um bom começo.

Considerando sua experiência e estudo, podemos considerar o jornal como um veículo parcial, carregado de preconceitos, juízos de valor e equívocos? Como o professor pode fazer frente a isso quando utilizar o jornal na sala de aula?
Flávia Aidar — Não me parece privilégio do jornal a parcialidade na veiculação da informação, ou o comprometimento com uma determinada visão de mundo, ideologia ou, em outras palavras, responder por uma determinada concepção editorial. O que se deve ter como compromisso e desafio dentro da escola é exatamente o da formação de um leitor crítico, independentemente do tipo de texto ou de suporte em que ele (texto) seja veiculado. Daí a importância da resposta à pergunta anterior, isto é, o professor deve saber como se constrói a linguagem jornalística para que ele possa “ensinar” como se lê jornal. Leitura, no sentido mais amplo, significa necessariamente ser capaz de analisar os diferentes discursos, identificar os diferentes elementos que compõem a linguagem jornalística, os significados e os contextos de produção da notícia. Neste processo de análise do texto jornalístico, deve-se chegar, necessariamente, a quem produz a notícia, para quem? como circula a informação (as agências de notícias), a que interesses ela responde ou representa? quem é o dono daquele meio de informação? quem é este “dono” dentro do contexto social e político do seu país? E daí por diante….


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. Muito além da leitura de jornal. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2002. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/muito-alem-da-leitura-de-jornal/>. Acesso em: 25 de abr. 2017.

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