O cinema como ponto de partida para a educação

Para a historiadora e professora Maria Ignes Carlos Magno, da Universidade Anhembi Morumbi, a instituição escola ainda não vê o campo da comunicação de massa como objeto de reflexão. Essa idéia foi apresentada no Seminário Educação e Comunicação: um debate contemporâneo, promovido pela FEUSP (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo) e pelo mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi, realizado entre os dias 6 e 8 de novembro, nos campi das duas instituições. Ao lado da historiadora, compondo a mesa-redonda “Televisão é espaço de educação?”, participaram Rosa Maria Bueno Fischer, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Brenda Carranzi e José Mario Ortiz Ramos, ambos da Unicamp.

Maria Magno, que desenvolveu a palestra “Mídia e escola: o cinema como recurso pedagógico e mediação do processo de construção do conhecimento”, dividiu sua fala em dois momentos. No primeiro, questionou o tema educação e comunicação como um debate contemporâneo. Depois, abordou um caso prático realizado numa turma do ensino fundamental.

À pergunta se educação e comunicação é um debate contemporâneo, Magno responde sim e não. “Não, se partirmos do pressuposto de que educação é comunicação”, explicou. Além disso, ela entende que não é um debate contemporâneo se entendermos que o mundo cultural e histórico só existe porque não há homem isolado, e que a comunicação implica em reciprocidade e interação entre os sujeitos.

No entanto, educação e comunicação é um debate contemporâneo se considerarmos, segundo Magno, “as mudanças tecnológicas e as influências dos meios de comunicação de massa em nosso cotidiano, nas práticas educativas, que alteram formas de pensar, de ver, de sentir, de se situar e de se relacionar com o mundo e com o conhecimento”. Ou ainda, quando “sabemos e precisamos reconhecer os meios de comunicação como um outro lugar do saber, atuando juntamente com as escolas e as agências de socialização, e que um dos grandes desafios hoje é exatamente a interpretação do mundo em que vivemos uma vez que as relações imagéticas estão carregadas da presença da mídia”.

A professora, ainda na primeira parte de sua palestra, enfatizou que educação e comunicação é um debate contemporâneo porque exige um repensar à própria instituição escolar, uma vez que esta deixou de ser o único espaço construtor do conhecimento. Além disso, a despeito de muitos educadores já terem colocado a mídia como um problema a ser considerado, a professora disse que a escola ainda não vê o campo da comunicação de massa como objeto de reflexão, exigindo, nesse sentido, “um novo olhar sobre o papel do professor e da instituição escola”.

Na segunda parte de sua palestra, Maria Ignes falou sobre o exercício desenvolvido na disciplina Educação para o Trabalho com alunos da 6ª série do ensino fundamental de uma escola paulistana. O objetivo do trabalho foi trabalhar as relações do grupo.

Magno contou que a professora da escola, na primeira aula, apresentou a proposta da disciplina e pediu aos alunos temas para discussão e crescimento do grupo. Alguns trouxeram filmes e outros, aviões, moda… “Ela pediu temas e eles trouxeram veículos para discutir o tema”, salientou. Os filmes foram: Todo Mundo em Pânico, Pânico, Pânico II, Pânico III, A Bruxa de Blair, Cidade dos Anjos, O Iluminado e O Resgate do Soldado Ryan. E os temas escolhidos foram: a morte, o terror, a comédia, a lenda, a história e a guerra, a droga, incluindo a bebida, o medo, os anjos, a velocidade e a influência da moda no cotidiano. A professora revelou que não tinha assistido nem a metade dos filmes, mas aceitou o desafio diante dos alunos.

Segundo Magno, o primeiro exercício dado pela professora foi: “Registrem o porquê dos filmes e a relação com a escolha dos temas”. Depois, em roda, pediu que discutissem e registrassem a experiência. Em outra etapa, solicitou um resumo dos filmes. Noutra tarefa, diante da impossibilidade de assistirem a todos os filmes, a professora orientou que trouxessem trechos selecionados que justificassem os temas. Magno abordou apenas o grupo que trabalhou com os filmes, mas registrou o respeito dado pela professora aos que trouxeram aviões e a moda como tema.

Em outro momento das atividades, contou Magno, a professora pediu à classe que escrevesse uma história com todos os elementos e temas discutidos em sala de aula. Como resultado, fizeram duas histórias — uma comédia erótica e uma policial. Um dos grupos chegou a filmar e apresentar em vídeo a criação. Na hora de avaliar o trabalho desenvolvido, a professora, lembrando que pediu tema e recebeu filmes, perguntou aos alunos: Por que o cinema? E o que é o cinema para vocês? O que traz a curiosidade para vocês no cinema?

Magno explicou, em sua palestra, que aqueles alunos partiram dos filmes e começaram na linguagem. Fizeram pesquisas sobre a história do cinema, como se faz uma cena, o que o escritor precisa para fazer um filme etc. Depois desse processo, a professora Maria Ignes Carlos Magno foi chamada para trabalhar com os alunos, respondendo às dúvidas que ainda restavam. “Reconstrui o caminho que chamei de saberes implícitos, das falas e das pesquisas, ou seja, a construção de outros conhecimentos; peguei cada exercício que fizeram e mostrei o que já existia de conhecimento e o que foi trazido de novo”, esclareceu.

Relembrando suas observações, Magno disse que os alunos demonstraram quanto o cinema está incorporado ao cotidiano quando, no primeiro exercício, a professora pediu temas e os alunos trouxeram filmes. “No entanto, aparece o filme como alguma coisa completa, pronta e acabada”, frisou. Quando a professora pede que justifiquem as escolhas e a relação com os temas, os alunos indicaram, segundo Magno, os gêneros do cinema, como a comédia, o terror e o drama. Além disso, teriam mostrado que os gêneros se mesclam. No resumo dos filmes para apresentar à classe, eles fizeram uma síntese, ou seja, uma sinopse. Quando a professora pediu para selecionar trechos dos filmes, os alunos pegaram uma unidade específica da ação — a cena, que “tem a função de revelar uma informação para o público pela imagem ou pelo diálogo”.

Magno lembrou também, em sua palestra, que um aluno analisou uma cena, seus efeitos especiais e até os furos. Para ela, o que o estudante fez ficou muito próximo do que seria a pedagogia da imagem, uma discussão bastante atual, segundo Magno. “Ele mostrou que o cinema também é um espaço de trabalho”, interpretou.

Prosseguindo no seu comentário, Magno disse que, quando selecionaram frases e imagens que justificassem a escolha dos temas, os alunos tiveram que trabalhar a percepção: “As escolhas mostravam relações com a vivência dos alunos”. Quando a professora pediu para os alunos escrevem um história, Magno entendeu que estavam fazendo um texto coletivo, chegando ao “item primeiro do cinema que é pensar o roteiro”. “Eles chegaram até à segunda fase do roteiro — criaram a história, trabalharam com o argumento e começaram a dar vida aos personagens”, explicou a historiadora, lembrando que o objetivo não foi fazer um curso de cinema, mas partir do filme Pânico, por exemplo, para a formação, quando for necessário.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. O cinema como ponto de partida para a educação. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/o-cinema-como-ponto-de-partida-para-a-educacao/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

Ou

O cinema como ponto de partida para a educação, por Ebenezer Takuno de Menezes, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/o-cinema-como-ponto-de-partida-para-a-educacao/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

Deixe um comentário

Carregando...