O indispensável vírus da curiosidade

O ensino médio e a chegada do vestibular colocam no horizonte do aluno a questão do trabalho. Como formar um cidadão para o mercado quando o mundo contemporâneo colocou em transformação o próprio conceito de trabalho? Essa foi uma das questões apresentadas por José Pastore, professor titular da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), durante o V Congresso e Feira de Educação Saber 2001, entre os dias 13 e 15 de setembro, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Sua palestra, chamada “Não procure emprego: busque empregabilidade”, colocou em pauta vários problemas para serem refletidos por educadores, diretores, coordenadores e orientadores a respeito da formação para o mundo profissional.

Segundo José Pastore, não existe mais a figura do trabalhador estável, que domina certos conhecimentos e se ajusta a empregos bem definidos e duradouros. “O que existe é um conjunto de competências que garantem ao cidadão sua empregabilidade, em cenários que não param de mudar”, disse. Pastore explica que as empresas não estão mais atrás de diplomas ou de profissionais, mas sim de respostas. E para acompanhar essas transformações no mercado, ele recomenda que o professor transmita ao aluno o vírus da curiosidade. “Trata-se de um vírus tão decisivo quanto a quantidade de conhecimento que a pessoa leva consigo”, explicou. Esse vírus, de acordo com Pastore, precisa ser “inoculado” no ensino médio, caso contrário, durante e depois da faculdade, será difícil ter o hábito de buscar conhecimento por conta própria.

“Seria bom que esse hábito da curiosidade viesse da família e dos professores do ensino fundamental”, alertou Pastore, ressaltando que no começo da escolarização os professores conseguem com facilidade transferir hábitos para as crianças. “Mas a gente não consegue transferir o hábito simplesmente falando, precisa ter exemplo em casa e na escola”. Nesse sentido, Pastore acredita que há muitos contra-exemplos. “Depois de um jantar, por exemplo, o aluno é trancado numa sala para fazer lição enquanto os pais ficam na televisão vendo novela de sacanagem… O que será que passa na cabeça da criança em termos de valores, de conduta?”, perguntou Pastore. A grande questão para essa criança, segundo Pastore, é “porque meus pais não sentam comigo para fazer a lição ou para conversar sobre a escola?”.

Diante dessa situação, Pastore acredita que há muita experiência em transmitir conhecimento, mas pouca em transmitir o hábito da curiosidade. A empregabilidade, capacidade de aprender muito por conta própria e condição para o trabalho no mundo atual, depende desse hábito. “Ninguém espera que um profissional saiba tudo a respeito da profissão, mas as empresas esperam que ele seja capaz de aprender continuamente e aqui entra o papel da educação”, esclareceu. A educação é importante para que o aluno (futuro profissional) saiba ser seletivo diante das informações que recebe e, além disso, o tempo do homem precisa estar dividido entre trabalho, lazer e aprendizagem – e não só trabalho e lazer como antes. Para Pastore, a curiosidade, o amor e o zelo pelo saber são os ingredientes mais importantes para as pessoas se prepararem para o mercado de trabalho. A escola, ao buscar novas formas de ensino, precisa também incluir formas de transmissão de condutas e hábitos porque estes são tão importantes quanto a transmissão do conhecimento.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
SANTOS, Thais Helena dos. O indispensável vírus da curiosidade. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/o-indispensavel-virus-da-curiosidade/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

Ou

O indispensável vírus da curiosidade, por Thais Helena dos Santos, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/o-indispensavel-virus-da-curiosidade/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

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