Pela memória daqueles que fizeram a escola

Ao lado da professora Eliane Marta Teixeira Lopes, da Universidade Federal de Minas Gerais, e da professora Sandra Francesca Conte de Almeida, da Universidade de Brasília, a professora associada Maria Cecília Cortez, da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), abordou o tema “A educação, a psicanálise e os saberes psicológicos nas escolas”, durante o III Colóquio “Psicanálise, Infância e Educação”, realizado nos dias 26 e 27 de outubro, no Auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

O encontro, organizado pelo LEPSI IP/FE (Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas e Educacionais sobre a Infância), reuniu profissionais, pesquisadores e estudantes de diversas áreas e regiões do País em torno de 5 mesas de debates e 81 sessões de comunicações livres.

A professora Maria Cecília Cortez iniciou sua participação lembrando algumas falas para relacioná-las aos seus estudos. Em alguns escritos, os professores aparecem mergulhados numa tristeza, em que lamentos e queixas escolares tornaram-se constantes e circulares. Essa depressão, entende Cortez, pode ser interpretada pela psicanálise, que pode ser considerada “uma grande reflexão sobre a memória”.

Ela explicou que os professores estão “condenados à morte”. “De certa forma, o que a gente espera, se tudo der certo, é que os nossos alunos nos superem”, frisou, afirmando que é justamente nesse sentido que os professores aparecem. Os memorialistas mostram eles como pessoas apagadas, que foram superadas e que fizeram um trabalho importante e anônimo. Contudo, Cortez salientou que temos dados estatísticos indicando o aumento da leitura de jornais, de que a população urbana sabe votar melhor, de que a população escolarizada vota melhor, de que surgem movimentos populares… “É um êxito quase invisível, que não deixa registro ou marcas”, explicou.

Nesse contexto, também existe um discurso depreciativo sobre a escola. Por exemplo, lembrou que a literatura sociológica diz, de certa forma, que somos um país com uma perversa distribuição de renda e a escola está destinada a fabricar a mão-de-obra. “Não existe nada de espantoso que esses professores, que estão encarregados de fabricar essa mão-de-obra mais barata do mundo, sejam mal pagos e não contenham condições de fazer seus trabalhos”, ressaltou. Em outras palavras, segundo a professora, esse discurso diz que existe um grande sistema econômico e não adianta as ações dos professores que fazem um imenso esforço para ensinar futuros desempregados. “É um panorama sombrio que nos acena em direção ao futuro”, resumiu.

A psicanálise, segundo Maria Cecília Cortez, teria a responsabilidade de olhar para a educação do ponto de vista da criança que foi encaminhada à clínica. Ou seja, para casos em que alguém foi traumatizado por uma professora, quando alguma palavra foi mal dirigida à criança, que nunca mais falou ou não consegue se desenvolver dentro da escola. Diante disso, a professora disse que sente falta de uma outra literatura que fale daquelas crianças que se desenvolveram por conta de uma professora. “Quais registros temos dessas crianças?”, perguntou Cortez, dizendo que “temos uma identificação com a criança e uma idéia de transferência negativa que é dirigida aos professores”.

Cortez disse ainda, em sua palestra, que um professor deprimido não pode apostar em ninguém. “Um professor, que não tenha a percepção da dignidade daquilo que faz, não aposta em si mesmo e não pode apostar em seu aluno”, explicou, afirmando que a psicanálise tem uma produção muito grande voltada para a infância e muito pequena dirigida aos professores. “O que fazer com esses professores melancólicos?”, perguntou à platéia. Como resposta, Cortez propôs recuperar a memória, mas não a oficial que deprecia professores e escolas e sim a memória daqueles que fizeram a escola.

Diante da falência do projeto de ascensão social, resta ao professor dizer aos alunos que se tentará ensinar. Ou seja, nas palavras de Cortez, “é melhor ser um desempregado instruído do que ser um empregado sem escola”. Porém, não podemos predizer o futuro dos alunos: “Nós não podemos dizer a eles para quê o conhecimento vai servir, mas sabemos que conhecer é melhor do que desconhecer, segundo uma herança iluminista”, alertou.

A professora Cortez finalizou sua participação dizendo que a psicanálise pode contribuir falando dos limites de uma onipotência pedagógica e daquilo que circunscreve a função dos docentes como sujeitos de memória, de como uma geração passa para outra, de como o conhecimento é transmitido e não pode ser confundido com essa pedagogia que se encontra na TV Globo ou numa idéia de que o computador e a televisão podem substituir a presença e o conhecimento que se dá em presença. “Não é uma questão simples de tecnologia, mas uma de apostar nessa fé que sempre se coloca na presença, com conteúdo, dando nome aos alunos e dando nome aos professores”, concluiu.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. Pela memória daqueles que fizeram a escola. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/pela-memoria-daqueles-que-fizeram-a-escola/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

Ou

Pela memória daqueles que fizeram a escola, por Ebenezer Takuno de Menezes, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/pela-memoria-daqueles-que-fizeram-a-escola/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

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