Por um outro lúdico na educação científica

Para o professor Marcos Pires Leodoro, do Centro Federal de Educação Tecnológica, a perspectiva do lúdico como atividade dissociada do produzir tem predominado na sociedade. Geralmente, o lazer é visto como prolongamento do trabalho para atenuar as tensões do esforço físico e mental do cotidiano. Além disso, o “lúdico é visto como atividade menor e ineficaz, uma vez que não estimula a competição”. Por outro lado, a escola também vê o lúdico com limitações, ou seja, apenas como um motivador para o conhecimento.

Em sua palestra “Educação Científica: artefatos lúdicos na sala de aula”, realizada no Saber 2001, entre os dias 13 e 15 de setembro, Leodoro abordou outra forma de conceber o lúdico: como uma modalidade de conhecimento. Nessa perspectiva, o lúdico pode ser compreendido como atividade de simulação e reconstrução de processos. “É a idéia de transformar o objeto em artefato no sentido que me apodero de seu princípio de funcionamento”, explicou. Em outras palavras, com a utilização de artefatos lúdicos na educação, é possível uma aproximação entre a aprendizagem da ciência e os processos envolvidos na construção do saber científico, articulando a especulação filosófica e a atividade prática dos artesãos. Portanto, um sentido diferente do lúdico entendido como diversão ou desvio de atenção, o que ocorre quando tomamos o termo como um motivador.

A prática desse teoria se reflete em utilizar objetos industrializados como brinquedos, utensílios domésticos e materiais de escritório na sala de aula. A educação científica, nesse contexto, pode decodificar os artefatos, revelando soluções históricas, inventividade, concepções estéticas e o imaginário tecnológico do homem. Além disso, essa proposta estimula nos alunos, garante o professor, uma atitude participativa e criadora, transgredindo a condição passiva de consumidor.

Leodoro, que assessora o Programa de Ciências da Fundação Bradesco, sugere algumas estratégias para o ensino fundamental na utilização de objetos industrializados como instrumentos didáticos. Como primeira abordagem, pode-se evidenciar propriedades físicas ou funcionais: por exemplo, pode-se classificar os objetos como engrenagens, alavancas e rodas. A segunda estratégia envolve a modificação, adaptação ou simulação didáticas da função original dos objetos, tendo em vista o conhecimento científico aprendido: uma tira elástica ou uma mola pode armazenar energia em uma engenhoca. A terceira sugestão, segundo Leodoro, envolve a construção de novos artefatos a partir de um projeto dos próprios alunos: um carretel de linha pode virar uma polia, por exemplo, num elevador. “Desenvolver o olhar dos alunos para que incorporem o conhecimento”, enfatizou.

O trabalho de Leodoro, que é mestre em educação pela Universidade de São Paulo, tem como fundamento uma noção política, que concebe a educação científica voltada para a construção da cidadania, abandonando a relação limitada de consumo dos produtos e tecnologias disponibilizados no mercado. “Temos o mito de viver numa sociedade extremamente funcional, onde tudo é consumido porque facilita a vida, mas podemos perceber que muitos dos nossos objetos não são funcionais, pois cumprem apenas uma função psicológica, de intermediação social”, alertou.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. Por um outro lúdico na educação científica. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/por-um-outro-ludico-na-educacao-cientifica/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

Ou

Por um outro lúdico na educação científica, por Ebenezer Takuno de Menezes, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/por-um-outro-ludico-na-educacao-cientifica/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

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