Revendo as promessas da escola

Ao lado do psicanalista Francis Imbert, do Institut Universitaire de Formation de Maîtres de Créteil (França), e do professor adjunto, Estanislao Antelo, da Universidade Nacional de Rosario (Argentina), a professora Flávia Schiling, da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), desenvolveu sua palestra sobre o tema “Educação, escola e ética nos tempos contemporâneos”, durante o III Colóquio “Psicanálise, Infância e Educação”, realizado nos dias 26 e 27 de outubro, no Auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

O encontro, organizado pelo LEPSI IP/FE (Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas e Educacionais sobre a Infância), reuniu profissionais, pesquisadores e estudantes de diversas áreas e regiões do País em torno de 5 mesas de debates e 81 sessões de comunicações livres.

Flávia Schiling contou duas histórias a fim de aproximar os temas da ética e da promessa. Segundo a professora, o tema da promessa é fundador do Brasil enquanto que o da ética se prolifera nas discussões de vários eventos, como seminários e palestras. Ela considera importante problematizar a ética pela sua emergência pública na cena política. “Emergência como algo que se torna visível, mas também algo que tem urgência”, explicou.

A primeira história foi sobre o impeachment do presidente Fernando Collor de Melo. “A emergência pública dessa questão da ética no Brasil pode ser vista num movimento pela ética na política que surge quando se investiga as atividades ilícitas do senhor Paulo César Farias e que envolve o então presidente da República”, afirmou a professora da USP, observando uma ironia da história: “A bandeira da ética na política havia sido empunhada inicialmente pelo próprio presidente quando prometia acabar com os marajás da República”.

Qual a relação entre ética e política? Para responder esse questão, Schiling citou algumas falas dos relatórios da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) e de outros documentos. Promessa não cumprida, mentira na política, quebra dos laços de confiança, mobilizações populares e governabilidade foram alguns temas abordados e relacionados ao tema da palestra. Citando Hannah Arendt, para falar da ética vinculada à ação política, disse que a promessa é o modo exclusivamente humano de ordenar o futuro, tornando-o previsível e seguro até onde for humanamente possível. A professora revelou ainda que o tema fundador do Brasil é a promessa não cumprida. “O Brasil é o país do futuro; futuro que não chega nunca”, proclamou.

A outra história contada pela professora da USP foi sobre um menino pobre da Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor), com 12 anos e uma longa carreira institucional em orfanatos, internatos e casas de correção. Durante uma rebelião, esse menino esquarteja outro como ele. Perguntado sobre o porquê do crime, ele responde: “Ele disse que ia fazer e não fez; eu, quando digo, eu faço”.

Nas palavras de Schiling, esse menino cumpre suas promessas: “Ele não agüenta mais o não cumprimento de promessas, mesmo sendo a de sua própria morte”. “Quantas promessas não cumpridas ele viveu em seus 12 anos para chegar a esse ponto de exasperação? Quantas promessas nacionais, institucionais, familiares não foram cumpridas?”, questionou a professora. Para justificar a história, Schiling explicou que gosta de trabalhar contrapondo o poder com aquele que não tem absolutamente nenhum poder. Ela entende também que há um deslocamento dos temas da ética e da promessa para a escola, onde se promete um futuro melhor.

A professora Flávia Schiling finalizou sua participação falando de outro menino que queria abandonar a escola para ser ladrão como o tio. Uma senhora, considerada louca, foi chamada para aconselhá-lo e disse: “Não largue a escola; não deixe de estudar; senão você vai ficar como seu tio numa cadeia com um monte de gente no aperto; se tu estuda, tu vai ficar na cela especial, com frigobar e tudo”.

Schiling considerou o conselho sábio. “A senhora não se contrapôs ao desejo, relacionando-se no nível discursivo possível, pois essa idéia de permanecer na escola pode abrir para o menino a possibilidade de outras escolhas profissionais além de ladrão”, explicou a professora, fazendo uma questão à platéia: “Será que a função principal da escola hoje é preparar para a cela especial?”

O tema da ética, portanto, está na escola, como entende a professora da USP. Porém, alertou dizendo que os estabelecimentos de ensino não devem ser o lócus privilegiado: “É um tema da cena pública e política, que precisa ser colocado nas grande lutas por direitos e cidadania”. Contudo, Schiling compreende que a escola deve revisar suas promessas e isso precisa ocorrer de maneira coletiva e política, ou seja, pelo debate.

O tema “Educação, escola e ética nos tempos contemporâneos” também foi abordado pelo psicanalista Francis Imbert e pelo professor Estanislao Antelo.


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. Revendo as promessas da escola. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/revendo-as-promessas-da-escola/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

Ou

Revendo as promessas da escola, por Ebenezer Takuno de Menezes, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.educabrasil.com.br/revendo-as-promessas-da-escola/>. Acesso em: 14 de dez. 2018.

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