Informações sobre uma educação em constante transformação, quando a tecnologia enriquece e facilita a aprendizagem

Alfabetização para uma nova sociedade

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Share on print

“A questão da alfabetização colocada por Paulo Freire vai marcar a nossa vida como processo, não só de sonho de ver esse país alfabetizado, mas de construção de uma nova sociedade mais justa, mais humana e solidária”. A declaração é de José Peixoto, professor aposentado da UFF (Universidade Federal Fluminense), que abordou o tema “Escola, alfabetização e cultura”, no I Seminário de Educação: Paulo Freire na Contemporaneidade, nos dias 4 e 5 de julho, na UERJ (São Gonçalo, RJ).

Peixoto entende que é preciso pensar a realidade com novas categorias. Fez isso, em parte, por exemplo, questionando: “O que é ser brasileiro? O que é ser latino-americano? O que nos une? O que nos faz universal? Se pensarmos por aí é possível fazer essa ligação que o tema propõe: escola, alfabetização e cultura. Onde essa escola se situa? Onde essa alfabetização se situa? O que é essa cultura? Quais são as raízes necessárias para que a gente compreenda e possa pensar num processo de alfabetização ainda bastante necessário?”

Diante dessas indagações, segundo Peixoto, o educador Paulo Freire nos auxilia a pensar quem somos de fato. Daí a sua contemporaneidade e originalidade. Nas palavras de Peixoto: “Dar continuidade a esse pensamento significa mais uma vez voltar ao eterno mergulho da realidade e, diante dela, realizar ação, reflexão, ação, ou seja, a prática educativa tão necessária”.

Saber a ler e escrever é parte dos direitos humanos. Peixoto parte disso, para lembrar que a modernidade não pode mais negar esse direito. Paulo Freire, nesse sentido, teria sido genial, no dizer de alguns, por ter captado o momento histórico do país e do mundo. Para Peixoto, isso foi possível graças à sensibilidade do pensador que sempre esteve mergulhado no seu povo e na sua identidade. Ele lembrou que Paulo Freire dizia que quanto mais universal se tornava, mais ele compreendia o ser nordestino; e quanto mais nordestino, mais universal se encontrava.

O próprio seminário, realizado na UERJ de São Gonçalo (RJ), seria parte de um esforço para investigar essa identidade, para nos questionarmos, segundo Peixoto, sobre qual escola podemos elaborar com tudo que aprendemos com a humanidade na história da ciências, incorporando uma reflexão que vem de um caminho diferente do sistema escolar. Nessa direção, bastante contemporânea, Peixoto salientou ainda a dificuldade de se ter o livro Educação como prática da liberdade, de Paulo Freire, examinado e discutido nos cursos de pedagogia. Daí a importância de um seminário capaz de recuperar historicamente suas idéias. “O pensamento de Paulo Freire, que passa pelos movimentos sociais, pela formação de professores, não é de negação do aprendido, mas de reflexão, de reestruturação diante da realidade e das novas formas possíveis de se educar”, explicou.

Peixoto ressaltou que Paulo Freire rompeu de maneira radical o conceito de alfabetização. Isso significa que “o ato de fazer escola é mais do que usar técnicas de cartilha ou não”. Ele compreende que a questão cultural deve se colocar de uma maneira mais radical com uma elaboração profundamente enraizada e articulada dentro dos processos políticos. “A educação é sempre um ato político”, lembrou. Disse ainda que o método Paulo Freire, ao fazer parte do PNA (Plano Nacional de Alfabetização), foi um dos pontos fundamentais para a decisão do golpe de 64. “O autoritarismo brasileiro não podia suportar a possibilidade, sequer a hipótese, de que esse país pudesse aprender a ler e escrever; isso nos dá uma dimensão histórica do que é a escola: saber é poder”, assegurou à platéia, questionando: “Alguém duvida disso ainda?”.