Pela reformulação do ensino

A prática da argumentação deve ser o eixo do ensino de todas as disciplinas. As linguagens que são a base dessa prática, o Português e a Matemática, devem ser trabalhadas priorizando o seu caráter instrumental, deixando até de possuir um programa próprio de conteúdos para atuar junto às outras áreas do conhecimento. Essa é a proposta de Gustavo Bernardo Krause, professor de Teoria da Literatura na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e doutor em Literatura Comparada, para reformular os atuais critérios de ensino e avaliação dos alunos da rede escolar. Em seu livro Educação pelo argumento, editado pela Rocco, coloca em questão uma série de paradigmas referentes à instituição escolar, chegando a compará-la a uma prisão. Para ele, as duas instituições usam o mesmo modelo que é o de vigiar e punir. Na entrevista a seguir, realizada pela editora Rocco, Bernardo fala de suas idéias para o ensino e de perspectivas para a educação no Brasil.

Pelo que se lê em seu livro, o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende. Por que isso acontece?
Gustavo Bernardo – Embora vejamos momentos de revalorização do professor, como no filme O informante, em que um repórter e um cientista optam pelo magistério como espaço em que ainda há um mínimo de dignidade intelectual, o lugar do professor é bastante desvalorizado pelo próprio professor, pelo aluno, por sua família e pela sociedade. É preciso reconhecer esta situação, especialmente no Brasil, como trágica, para se começar a enfrentá-la.

O atual modelo de ensino vigente no Brasil permite que as idéias expostas no livro venham a ser aplicadas a médio prazo? O que deveria ser feito?
Bernardo – As idéias expostas no livro são de fácil aplicação, já que não dependem de materiais ou prédios caros. Por outro lado, no entanto, exigem dos professores e das autoridades educacionais que se pare de rodar em círculos em reuniões inúteis e se modifique a estrutura de todo o ensino a partir de poucos princípios filosóficos e metodológicos. Para começar, gostaria que elas fossem discutidas a sério, suspendendo provisoriamente todos os preconceitos e interesses em contrário.

O livro didático deveria ser abolido da escola?
Bernardo – Ouso dizer, na contramão das iniciativas governamentais, que sim. O livro didático desresponsabiliza a escola de montar uma biblioteca, desresponsabiliza o professor de construir o seu material didático e sequer de ser capaz de fazer os exercícios a que obriga os seus alunos, graças aos malditos livros de resposta, e ainda desresponsabiliza as editoras de fazerem a sua parte na produção do conhecimento, da cultura e da ciência. Em conseqüência, o livro didático desresponsabiliza o aluno de ler livros de verdade e de construir a sua história de leituras e de pesquisa.

Os professores estão preparados para uma prática disciplinar que seja articulada a partir de um enfoque argumentativo?
Bernardo – Aqueles que são considerados os melhores professores em cada disciplina normalmente o são porque já têm uma visão mais ampla, conhecem os princípios do que fazem e sabem argumentar. Muitos decerto não estariam preparados, mas cabe à escola e à universidade prepará-los o mais rápido possível, para tentar enfrentar o enorme tempo perdido com uma educação bancária e cientificista tão distante dos princípios de construção das ciências.

O exame pré-vestibular já foi banido em quase todo o mundo. Por que no Brasil ele continua em vigor?
Bernardo – Primeiro, porque ele é um negócio que envolve universidade, escola, editoras, gráficas, imprensa especializada, sem contar milhares de professores recebendo em extra para corrigir milhões de redações e provas discursivas (ganhamos fazendo o trabalho mais mecânico da nossa profissão). Segundo, porque se estimulou o fetiche do diploma do ensino superior ao mesmo tempo que não se podia garantir nem vaga na universidade nem emprego qualificado para todo mundo. Terceiro, porque as escolas de formação técnica no país, ainda que boas, são em número muito reduzido.

Há boas perspectivas para o futuro do ensino brasileiro?
Bernardo – Há boas razões para se escolher tanto o otimismo quanto o pessimismo, mas a escolha em si não é boa. Prefiro fazer o que faço o melhor possível, confiante de que o melhor método de educação é o do exemplo. Os pessimistas de plantão costumam reclamar que a juventude não lê, escondendo que a estante de sua casa está cheia de aparelhos eletrônicos e vazia de livros. Os otimistas oficiais manipulam estatísticas para mostrar, por exemplo, que os professores do interior estão ganhando muito mais, escondendo que esse “muito mais” ainda é pouco demais. Cabe a todos dar o melhor exemplo, o que já seria tudo; o futuro pertence aos que virão.

O que precisa ser feito para que o professor brasileiro seja mais bem preparado?
Bernardo – Decerto não será com “semanas de reciclagem” que o professor brasileiro se perceberá mais bem preparado; reciclagem é mais adequada para plástico. É necessário que as escolas públicas e particulares dêem a seus mestres condições decentes de trabalho e estudo e ao mesmo tempo cobrem a contrapartida competente de estudo e de trabalho dos seus professores. As turmas devem ter o máximo de 35 alunos; os professores devem trabalhar o máximo de 20 horas por semana em sala de aula; as salas de aulas devem se tornar pequenas bibliotecas; todo professor deve produzir academicamente por toda a sua vida – se o aluno deve ler muito, o professor será o exemplo de quem lê muito; se o aluno deve escrever para ser avaliado, o professor será o exemplo de quem está sempre escrevendo e sendo avaliado; e, obviamente, o salário deve atrair os melhores, ou então o discurso oficial sobre a importância da educação é, mais do que demagógico, mentiroso e perverso.

Educação pelo argumento parte do princípio de que as disciplinas Português (Língua Materna) e Matemática comporiam a essência de toda a estrutura do aprendizado. Isso quer dizer que um professor de Geografia deverá estar capacitado a ensinar Matemática e Português?
Bernardo – Todo professor de qualquer disciplina ensina Português, isto é, ensina a ler e a escrever, quer pelo exemplo de como ele mesmo usa a sua língua materna quer pela sua prática didática em cada aula, exercício ou prova. Da mesma maneira, todo professor de qualquer disciplina ensina Matemática, isto é, ensina estruturas lógicas, quer pelo exemplo de como ele mesmo estrutura a sua matéria quer pela sua prática didática. Como isso, entretanto, não é consciente, tantas vezes se ensinam o Português e a Matemática de maneira errada, prejudicando os porventura bons professores que os alunos tenham tido tanto em Matemática quanto de Português. Para completar as condições necessárias da pergunta anterior, deveríamos acrescentar que os professores de todas as disciplinas devem ter eles mesmos aulas regulares de Português (com menos gramática e mais lógica do discurso), Matemática (com menos fórmulas e mais princípios de abstração) e Filosofia (com menos história da filosofia e mais epistemologia).


COMO CITAR ESSE CONTEÚDO:
MENEZES, Ebenezer Takuno de. Pela reformulação do ensino. Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <https://www.educabrasil.com.br/pela-reformulacao-do-ensino/>. Acesso em: 06 de dez. 2019.

Ou

Pela reformulação do ensino, por Ebenezer Takuno de Menezes, em Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <https://www.educabrasil.com.br/pela-reformulacao-do-ensino/>. Acesso em: 06 de dez. 2019.